sábado, 18 de outubro de 2008

Um Cupido Imprudente

Por Roberto Dupré

Como Eros, amo desmedidamente
E é tão cruel esse amor, que não sufoca apenas o amante.
Mata o ser amado.
Como Eros, amo desmedidamente
Um amor sem limites que
Ama todos: a mulher que amo, a mulher na rua,
A foto nua da garota-propaganda, a moça do tempo.
Amo o amor, Amo a beleza da atriz e da meretriz (magra ou gorda; loira ou negra; mocinha ou vilã).
Amo você.
E amo muito a vida que se esvai. Sou um escravo desse amor
O que faço em nome dele é monstruoso. Indescritível.
Digo que tenho que ser querido o tempo todo por você,
A quem mantenho encurralada
Na teia pegajosa do que chamo Amor
Na verdade, sou apenas um egoísta afogado em angústia.
(Proposta da aula de 11/10)

Explode Coração

Composição: Gonzaguinha

Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar e eu não quero mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar

Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar e tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim
Como se fosse o sol desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor desta manhã

Nascendo, rompendo, tomando, rasgando, meu corpo e então eu
Chorando, gostando, sofrendo, adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança
Eu quero o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar, explode coração...

Tango de Nancy

Composição: Edu Lobo e Chico Buarque

Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus feijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha

Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim

Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos,
Que nunca mais

Amor e Sexo

Composição: Rita Lee / Roberto de Carvalho / Arnaldo Jabor

Amor é um livro
Sexo é esporte
Sexo é escolha
Amor é sorte...

Amor é pensamento
Teorema
Amor é novela
Sexo é cinema..

Sexo é imaginação
Fantasia
Amor é prosa
Sexo é poesia...
O amor nos torna
Patéticos
Sexo é uma selva
De epiléticos...

Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval
Oh! Oh! Uh!

Amor é para sempre
Sexo também
Sexo é do bom
Amor é do bem...

Amor sem sexo
É amizade
Sexo sem amor
É vontade...

Amor é um
Sexo é dois
Sexo antes
Amor depois...

Sexo vem dos outros
E vai embora
Amor vem de nós
E demora...

Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão

Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval
Oh! Oh! Uh!

Amor é isso
Sexo é aquilo
E coisa e tal!
E tal e coisa!
Uh! Uh! Uh!
Ai o amor!
Hum! O sexo!



Eros x Príapo

Eros é uma das “Divindades Primordiais”, aquelas que pertencem à “pré-história” da Mitologia grega. Segundo o pensamento órfico (de Orfeu, figura mítica que deu origem a uma doutrina filosófica e religiosa), Eros teria nascido do Ovo primordial (o Caos), engendrado pela Noite, cujas metades se separaram, dando origem à Terra e ao Céu. Ele é o princípio da atração universal, que leva as coisas a se juntarem, criando a vida. Eros é a força que assegura a coesão interna do Cosmos e a continuidade da vida na terra (1).

Eros e Psique
Para Platão, ele seria um dáimon, uma força espiritual intermediária entre a divindade e a humanidade. Na cultura romana, Eros é confundido com Cupido, filho de Vênus (a deusa do amor) e de Marte (o deus da guerra), representado como uma criança alada, nua, armada com arco e flechas ou com espada e escudo, símbolo da paixão arrebatadora. Acontece que, com o passar do tempo, se desfigurou o sentido etimológico da palavra “erótico”, reduzindo o conceito a um tipo de satisfação carnal proibida (“sexo sem pecado é como ovo sem sal”, diria o cineasta Luis Buñuel), à nudez, à sacanagem, aos filmes pornôs. Confundiu-se Eros com Príapo, o deus do sexo, representado com um falo enorme, protetor dos reprodutores e símbolo da procriação.


Príapo

O Eros verdadeiro é o deus do amor no seu sentido integral, que engloba corpo e alma. A atração puramente física é animalesca e não humana. É apenas o bicho que tem o período do cio. O homem e a mulher se amam (ou deveriam se amar!) sempre e em todos os lugares por uma comunhão de sentimentos que transcende o aspecto corporal.


O erotismo, que verdadeiramente funciona e que faz perdurar a atração recíproca por longo tempo, está no olhar apaixonado, na admiração que o amante sente pelas qualidades físicas e espirituais que consegue enxergar na pessoa amada. O erotismo, que realmente e de uma forma mais duradoura estimula o desejo, se encontra na poesia lírica, na pintura, na dança, nos filmes sentimentais, na arte em geral, pois supera o nível do real e penetra no mundo da fantasia, do sonho, do vago sentimento do inacessível.

Por esse prisma, os Cantos de Salomão e a poesia trovadoresca são mais eróticos do que o Kama Sutra. O erotismo está mais no sugerir do que no mostrar totalmente, no claro-escuro, na promessa do idílio, no mistério a ser desvendado, na repetição do ato do amor como se fosse sempre pela primeira vez.

Como diz a poeta Adélia Prado, “erótica é a alma”! Só que conhecer o espírito de alguém é bem mais difícil do que lhe conhecer o corpo. Manuel Bandeira nos oferece uma reflexão interessante a respeito:


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque corpos se entendem; as almas, nem sempre.

E, sobre a renovação do desejo erótico, esta bela imagem do poeta Mário Quintana: “amar é mudar a alma de casa”.

Enfim, o erotismo, entendido como prática do amor num sentido bem geral, é onipresente em qualquer atividade humana bem-sucedida.

A escritora Lygia Fagundes Telles afirma acertadamente: “Vocação é ter a felicidade de ter como ofício a paixão”. Mas é a escritora existencialista francesa, Simone de Beauvoir, companheira do grande poeta-filósofo Jean-Paul Sartre, quem melhor define a essência da relação carnal: “O erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a sociedade”.


Referência:

1. D´ONOFRIO, Salvatore. Pequena enciclopédia da cultura ocidental: o saber indispensável, os mitos eternos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Primeiro encontro (11-10-2008)

Caros amigos,


Hoje teve início mais um módulo do Escrevivendo, este Escrevivendo Memórias Eróticas. Nosso propósito com o presente tema é dar continuidade às discussões do módulo anterior (Escrevivendo Memórias de Amor), uma vez que não apareceram somente discussões e textos a respeito do amor idealizado. Houve muitos textos erotizados, e isso nos chamou a atenção para quais seriam os limites existentes entre amor idealizado, erotismo e pornografia. Pretendemos, então, trazer tal polêmica para cá, sempre visando ao cumprimento da proposta do Projeto Escrevivendo, que é uma só em todos os módulos.


Desta vez estamos ainda mais felizes, porque temos companhia! Além desta turma de escreviventes, há outras duas: uma às quintas-feiras, aqui na Casa das Rosas mesmo, e outra no Museu da Língua Portuguesa (veja o endereço do blog na coluna ao lado). Boa sorte para todos nós!


Pois bem, nosso primeiro encontro teve início com a habitual apresentação do Projeto Escrevivendo - sua proposta e o funcionamento da oficina - , uma apresentação de mim, Loreta, da Mafuane e dos participantes. Nosso público continua bem variado, mas, como todos estão ali buscando refletir sobre sua relação com a escrita - sua e do outro - , a turma logo fica coesa e o ambiente se torna familiar, aconchegante.


Em seguida, falamos um pouco sobre os mitos que cercam o ato de escrever, constantes do livro de Garcez (2004, p. 2-12), quais sejam:

a) escrever é uma habilidade que pode ser desenvolvida e não um dom que poucas pessoas têm;
b) escrever é um ato que exige empenho e trabalho e não um fenômeno espontâneo;
c) escrever exige estudo sério e não é uma competência que se forma com algumas "dicas";
d) escrever é uma prática que se articula com a prática da leitura;
e) escrever é necessário no mundo moderno;
f) escrever é um ato vinculado a práticas sociais.


Fizemos um rápido intervalo e voltamos falando um pouco a respeito de Eros, deus grego do Amor de cujo nome derivam vocábulos como erótico e erotismo. Logo depois, pedimos uma produção inicial, bastante simples - um elogio a Eros -, com a finalidade de 1) ter um primeiro contato com a escrita dos participantes e 2) já introduzir a discussão sobre o Banquete, texto de Platão que é um elogio ao amor. Eu e Mafuane não fizemos nenhuma restrição a respeito do gênero a ser desenvolvido, com exceção de eles terem de se dirigir ao Deus, adorando-o e pedindo-lhe inspiração para os próximos trabalhos. Eles tiveram cerca de 20 min. para realizar a produção, após o que iniciamos a rodada de leituras.

Todos conseguiram realizar a proposta e bem de acordo com o que prevíamos: textos encomiásticos, como as odes. Cremos que Eros tenha ficado muito satisfeito!

Vocês podem conferir os textos na coluna "Nossas memórias" (proposta de 11-10).

Proposta (11-10-2008):

Elaborar um elogio a Eros, adorando-o e pedindo-lhe inspiração para a escrita.
Por Bruna Nehring

Eros, eu não te conhecia.

Não sabia do teu cabelo liso, negro, comprido o suficiente para recolhê-lo atrás das orelhas.

Bastou eu perceber a intenção do teu olhar: vi teus braços jogados para trás, onde teus dedos, longos e nervosos, se agarraram ao suéter negro, arrancando-lhe as costas e passando-as por cima da cabeça, descompondo-te as mechas.

Por um momento o emaranhado de lã cobriu teu peito, enquanto teus braços continuavam presa daquelas mangas pretas.

Uma mão no ar, depois a outra.

Num segundo, teu tórax nu.

Aí eu soube quem era você.
____________________________________________________
Por Sandra Regina Bernabé Rodrigues
Eros, tua jovialidade e beleza me enfeitiçaram.
Encantada com tuas virtudes, me enfraqueci
Deixei-me envolver pelas flechas do Cupido

Fiquei cega e me apaixonei loucamente
O mundo a minha volta parecia não existir
A não ser o mundo que imaginava enxergar

Mas o tempo foi passando,
e aquela paixão que me escravizou
Foi aos poucos me libertando
Os meus olhos foram se abrindo
e aos poucos percebi que não fostes tão bom para mim:
Brincastes com meus sentimentos
e me fizestes sofrer.

No desamor, quis jogar-te meus ressentimentos.
Na reflexão, descobri que a culpa era dos homens
Homens imperfeitos que não sabem cultivar o verdadeiro amor.
____________________________________________________
Por Paulo Mayr
Eros,

Seu poderio é imenso.

Certamente, devemos ao seu talento um milagre: homens – muito racionais, pouco emotivos – e mulheres – sempre movidas pelo desejo – conseguirem viver momentos de amor.

Como somos bilhões de humanos, desentendimentos incontáveis, e o amor é alimento fundamental para a alma, suplico e sugiro:

Contrate assessores, muitos e muitíssimos eficientes assessores!
______________________________________________________
Por Luiza
Eros, ao te ver assim, nu, figura limpa, com o arco e a flecha na mão, penso comigo mesma: “Como és importante!” Porque para quem dirigires tua pontaria darás imenso prazer e dor.
Ó Eros, te venero, mas no meu íntimo também te odeio, por teres me unido a alguém que me fez mais mal do que bem.
Eros, te enalteço mesmo assim, porque sem a experiência não poderia haver este julgamento que tenho agora.
Por que não dizer que tua força está na oportunidade que nos dás de experienciar a paixão e o amor? Diferentes exercícios a cada alvo acertado por ti.
Eros, tu sabes de antemão que para nós, humanos, tão pequenos perto da tua sabedoria, será um caminho conflituoso e saboroso -- um presente dos deuses para nos elevar a uma condição mais divina, além das coisas terrenas, além muitas vezes da compreensão racional. Mesmo assim nos oferece.
Ó Eros, depois de tudo isso dito, devo reconhecer: venerar-te também é labuta, autoconhecimento, poesia e loucura.
________________________________________________
Docarmo
Coração do Éden, aos 18 de outubro de 2008.


QUERIDO AMIGO EROS,

Estimo que você esteja em perfeita forma e que todos os seus desejos sejam concretizados.
Aqui, em Coração, tudo continua maravilhoso: filhos, netos, genro e nora na maior harmonia, e suponho que estejam vibrando sob as influências de seu espírito entusiasta, uma vez que são jovens e com filosofia de vida nada parecida com a minha, que para o contexto social atual é considerada retrógrada.
Amigo, agradeço seu costumeiro convite, sempre tão amável e tentador, para mais uma reunião temática nos próximos finais de semana.

Como é de seu conhecimento, esse assunto é meio tabu para mim. Você conhece bem minha opinião sobre esse tema; continuo afirmando que quando existe amor verdadeiro tudo acontece suave e naturalmente romântico, dispensando estimulantes artificiais,
O que fazer e como decidir? Estou em uma encruzilhada.

Como aproveitar essa oportunidade de, mais uma vez, desfrutar da companhia dos amigos queridos e não compartilhar da leitura dos lindos textos e dos comentários sempre tão interessantes e esclarecedores, por ser um tema que me inibe e constrange?

Foi difícil encontrar uma solução satisfatória para esse impasse, mas a encontrei e tenho certeza de que você e todos os nossos amigos convidados irão aprovar minha decisão.

Amigo, até lá. Beijos e brilho,

Escrevivente Docarmo.
_______________________________________________
por Sandra Tanaka
Ó Deus dos ais,
e dos ai, ais.


Mestre do encanto
Transmutador de corpos


Desejo aflorado
em todos os sentidos


A irresistível flecha
Que lanças
Põe de joelhos
O mais forte dos mortais


Vences a inteligência,
As diferenças,
A moral


A vós que sois o oposto da morte
Devotamos a efêmera dádiva da vida.